Pulmão

Oh my dear, eu ouço aquela canção da calcanhotto “ainda tem o seu perfume pela casa” e eu quase acredito que teu espírito ainda está aqui. É quase como flutuar nas nuvens quando o vazio começa a ruminar e a me gritar que sim, sou sozinho, sou aflito e sou só. Eu juro que os teus abraços foram os mais apertados que alguém, algum dia, consentiu em me dar. Também te digo que sim, as tuas lágrimas foram as mais exauridas por mim e as mais bonitas, como olhar às flores e chorar pela beleza contrair-se num olhar tão pequeno mas que agiganta-se quando visto novamente. Drummond tem uma crônica que fala do jardineiro e da flor e eu só consigo lembrar que você foi espinho me dilacerando todo, numa música do chico com beyoncé, num semitom que arrancou o surdo dos meus ouvidos e calou a minha voz de dentro. Se eu pudesse te amar ainda mais, suspenderia a cena, o drama, o coma, alargaria meus pulmões e te protegeria bem aqui, onde chuva alguma pode tocar. O toque: um, dois, três, o ritmo, a musicalidade que queima, o bolero que acaba com tudo que se criou. Me arranca daqui, eu só tenho dezessete anos, meu amor, my dear, e diga que você está voltando porque eu já não aguento mais carregar tanta flor nas costas se a dor ainda nem foi completa. Eu suporto tuas ausências em sextas-feiras e me agarro ao cigarro para te prender no céu da minha boca. Porque os meus pulmões, mesmo que quase mortos e cansados, ainda cheiram a ti.
Floresinexatas.

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